Domingo, Janeiro 22, 2012

Conselho de mãe

"Minha filha, lembre-se sempre do seguinte: a vida é uma tarefa* na roça, cheia de mato brabo. Tem uns lugares piores para carpinar do que outros. E, em muitos momentos, você vai precisar amolar a enxada pra voltar a carpir direito. O sol vai te consumir, suor vai escorrer do seu rosto. E você vai querer jogar a enxada longe cada vez que for preciso amolar - eu sei, eu te conheço. Mas quando você terminar a tarefa, vai poder olhar pra trás e passear tranquilamente por um campo todo aparado, bonito e pronto para um novo plantio. E vai se orgulhar de ter feito tudo aquilo. Mas, por enquanto, não se precipite. Pense que você está no meio dessa carpina, e pense no tanto de chão que você já andou. É preciso amolar a enxada de novo".

- Por dona Maria, minha mãe. A mesma autora da máxima "O mundo não tem cadeado", dita anos atrás durante uma fase muito ruim para a filha.

Não é à toa que amo Guimarães Rosa.

***

*Medida equivalente a dois hectares de terra no interior da Bahia.

Sábado, Dezembro 24, 2011

Natal

O Natal me entristece um pouco ainda. Nos últimos anos, melhorei bastante na relação com este período do ano - quem me conhece, sabe que esse sentimento já foi pior. Mas ainda bate uma melancolia.

É por causa de quem não está mais aqui sim. Mas vi que não é só por isso. Mas é também porque a gente muda. Mudam os interesses, os hábitos, a própria vida e também a vida dos mais queridos.

Na maioria dos casos, as mudanças são ótimas e dignas de alegria e comemoração. E isso não anula a saudade de outras épocas. Afinal, as mudanças tão celebradas também vão resultar em alteração nos hábitos de vida. A amiga mais querida que vai casar vai ter uma vida diferente depois do casório, certamente. O amigo querido que vai ser pai dificilmente vai conseguir ficar no bar até as 2h. A outra querida que mudou de emprego não vai mais compartilhar os seus lamentos no almoço ou pós-expediente, porque a vida vai ficar diferente.

Toda conquista tem alguma perda. Mas nem por isso a gente precisa se agarrar ao que perdeu. As conquistas são sinais da renovação da vida, que segue em frente, linda e cheia de oportunidades. Por isso ela muda, e por isso queremos sempre mais dela.

Vai-se um amigo querido que continua amigo, mas vêm outras pessoas tão especiais quanto, e que você reconhece como amigas de infância mesmo após 30 minutos de conversa. Ouve-se muita música ruim, mas de repente as andanças na internet te revelam aquele que canta as músicas que você quer ter na trilha de sua vida. Você acha que perdeu a chance com um amor, mas em algum momento ele te bate à porta sem que você perceba ao certo como chegou. E assim a vida promove sua limpeza cotidiana em nossas rotinas.

Talvez essa melancolia natalina me desperte as lembranças provocadas pelas perdas. E acho que não vou me culpar ao sentir isso. Vou sentir, simplesmente. E, daqui alguns dias, comemorarei o clima de ano novo, livre para fazer todas as promessas e listas que poderão nem ser cumpridas - mas que terão a delícia do gosto de novidade das novas resoluções e objetivos.

Feliz Natal a todos!




Domingo, Novembro 06, 2011

Perguntas

Até quando é possível insistir no erro?

Em que hora a gente descobre que a insistência no erro, no final das contas, é um acerto?

Há alguma sinalização em parte desse caminho?

Ou as sinalizações são subjetivas?

Se são subjetivas, elas poderiam ser chamadas de sinalizações?

Até quando a gente precisa manter uma opinião pelo simples fato de ter uma opinião?

Em que hora é possível mudar sem ser chamado de incoerente?

Melhor: pq eu fico tão incomodada com a incoerência? Principalmente com a minha?

Por que precisamos manter vivas algumas coisas que hoje já não fazem mais sentido?

Essas tantas perguntas me vieram à cabeça durante boa parte da vida, mas resolveram se agrupar todas em minha cabeça nesta última semana. Elas foram motivadas por algo nem tão nobre assim: as notícias sobre a integração do Blogger ao Google + (rede que eu ainda não sei que funções tem). Na realidade, minha leitura torta me levou a crer que o Blogger ia acabar, e que eu ia perder os escritos de tanto tempo. Acho que isso não vai acontecer. Espero.

Mas, se acontecer, o que vai ser perdido aqui? Registros do passado, um raio X de como foram meus últimos seis (SEIS!) anos em texto - ou nem tudo isso, já que os posts andam cada vez mais escassos.

Eu já tive vontade de dar fim nisso aqui, assim como tive vontade de dar fim ao perfil do Orkut. Mas eu não tenho coragem. Eu gostaria de salvar tudo antes, mas aí, tenho preguiça.

O melhor é deixá-lo assim, abandonado mesmo, com uma limpezinha periódica, assim como nos álbuns de fotografia dos quais eu tiro poeira qdo quero ter lembranças.

***

Acho que é chover no molhado dizer que todas essas ferramentas (Facebook, Twitter) mexeram com nossa capacidade de reflexão. Que não conseguimos mais ler textos longos na net etc. Mas, me responda: vc consegue acompanhar fielmente um blog nos dias de hj?

Eu, infelizmente, não consigo mais. E sei que, com isso, perco oportunidade de ler ótimos textos.

Mas vamos em frente com o que tem pra hoje.





Quinta-feira, Agosto 04, 2011

O sagrado direito à liberdade ou Mais uma viagem.

Pensando direito, há mais de três anos eu não tirava férias de exatos 30 dias. O que me dá o enorme privilégio de ter chegado de uma viagem de quase 20 dias e ainda ter o direito de acordar tarde e fazer planos para o dia. Enquanto essa vida não acaba, resta o martírio de assistir ao Vídeo Show diariamente (olha q é um martírio mesmo).

***

Então, eu viajei. Minha segunda viagem sozinha ao exterior foi uma epopeia. Bodeei de Mendoza, me apaixonei por Buenos Aires e agora faço planos de voltar a Montevideu no verão. Antecipei minha volta e, com isso, ganhei mais dívidas, mas continuei praticando o meu sagrado direito à liberdade. Depois de bodear por ficar dias demais em Mendoza, quis encurtar a passagem pelas outras cidades para aproveitá-las ao máximo e ficar com vontade de voltar. Foi a melhor coisa que fiz.

Conheci gente bacana, gente muito bacana, gente esquisita e gente q eu evitei. Foi uma viagem menos harmônica, digamos, que a viagem para o Chile no ano passado, onde tudo correu de maneira perfeita. Esse período foi marcado por alguns imprevistos: sapatos arrebentados (sim, plural), fotos perdidas, compras adicionais e planos não realizados (quer dizer... intenções não realizadas). E justamente os lugares para os quais menos me planejei foram os que mais me surpreenderam.

Eu confesso que não entendia muito bem a razão de todos morrerem de amores por Buenos Aires. Por isso, não tinha taaanta vontade de ir pra lá. Acabei indo para cumprir tabela. Ao andar pelas largas calçadas e avenidas portenhas, entendi o encanto. Ainda não sei explicar, só sei que entendi. Acho até que, inconscientemente, deixei de visitar lugares recomendados só pra ter a desculpa de voltar, como a Recoleta, por exemplo.

Eu até quis aproveitar a cidade durante o dia. Mas não consegui como gostaria. A noite não deixou. E levei vida de magnata nos almoços e jantares. Gastei mais do que devia, é fato. Mas valeu à pena.

Atravessei o Rio da Prata para Colonia del Sacramento com muitos torcedores uruguaios que comemoravam a (merecida) vitória na Copa América. Aprendi o hino da Celeste (soy celeste / soy celeste / celeste soy yo) e só não cantei pq fiquei com vergonha. Tirei em Colonia as mais belas fotos dessa viagem, sempre sorridente e feliz com uma cidadezinha tão linda, com uma relação tão próxima do Rio da Prata.

(E aí eu pensei em como eu admiro cidades que tenham uma boa relação com rios ou com o mar. E como isso me faz falta, apesar de nunca ter vivido essa realidade, de fato.)

Em Montevidéu, tive vida mais tranquila, e fui presenteada com uma noite de chuva quando o que eu mais precisava era dormir. E também me apaixonei pela cidade, com a importante colaboração do povo uruguaio. São educados, amáveis, gentis, e tudo isso de verdade, sem formalidades ou escorregões que revelam estupidez (como no caso de alguns vários argentinos). E são lindos. Gente. Era homem bonito na rua, no ônibus, no balcão de loja, de restaurante... E eu volto pro Uruguai. Mas no verão, para poder andar mais pelas ramblas, sem precisar me defender do vento frio.

Nesse período, conheci muita gente, mas também fiquei um bom tempo sozinha, com várias reflexões sobre a vida. Sobre as coisas q eu suporto e também sobre o que eu não tolero mais, sobre os nossos limites e bloqueios (consegui falar inglês, por exemplo, coisa q sempre me deu pânico), sobre as nossas escolhas e também as pessoas que atraímos para nossa convivência. Não cheguei a conclusões fechadas, e nem viajei para isso. Mas vi muita coisa com mais clareza. Fruto da terapia, do pós-30, das férias, de uma cabeça mais fresca, talvez.

Uma das poucas conclusões às quais cheguei é que eu trabalho para pagar viagens. Não é preciso dizer que já estou pensando na próxima.

***

Novamente, foram muitas e excelentes as companhias deste período: desde a portuguesa que "desaportuguesou" o sotaque para ser entendida durante o tempo que viveu no Brasil, passando pelo carioca que resolveu ir pra Buenos Aires sozinho, no auge dos seus 19 anos e com uma maturidade incomum aos jovens da mesma idade, sem deixar de citar a companheira de quarto em Montevidéu q era 1- assessora de imprensa, 2- estudante da Cásper, 3- torcedora do Corinthians e 4- (e mais importante) moradora de Pirituba!

Também não posso deixar de citar a Mafalda, de Quino. Os três livrinhos comprados na feira de San Telmo, em Buenos Aires, foram de grande valia para os poucos momentos de ócio, e me fizeram entender pq tta gente adoora a pequena menina de oito anos, politizada sem ser chata e com inteligência acima da média. Quero continuar lendo mais da Mafalda. Mas em espanhol, claro. Porque eu sou fresca mesmo.

Sábado, Junho 25, 2011

Sensações

Friozinho na barriga ao ver que as férias estão chegando.

Frio na nuca ao descobrir uma cagada.

Sentimento de estupidez ao descobrir que fiz reservas em hostel em mês errado.

Medinho do dinheiro não dar para a viagem.

Alivio ao fazer as contas e descobrir que vai dar sim.

Ansiedade sobre os próximos dias.

Mtas energias positivas para que tudo dê certo nos dias antes das férias (tem taanta coisa pra acontecer até lá).

Curiosidade sobre o que me espera.

E muita, muita curiosidade sobre Montevideu. Não sei a razão, não me perguntem. Não deve ter razão clara.

E a torcida para que essas duas semaninhas passem bem rápido...




Sábado, Junho 04, 2011

Escapes, reações contraditórias e a culpa do destino

Ah, as válvulas de escape.

No meio de tanto, mas taaanto trabalho, eu consigo abrir um sorriso em momentos improváveis pensando nas férias que vão chegar já em julho.

Assim. É mto trabalho mesmo. Mas, ultimamente, tenho medo de dizer que "nunca trabalhei tanto na vida". A outra semana chega e me mostra que, sim, é possível trabalhar mais.

Sabe o pior? Eu gosto.

***

Mesmo gostando, aí vêm as férias, ah, as férias. Primeiro, elas estavam marcadas para a Austrália. Td por causa de queridos que foram pra lá conquistar a fluência no inglês e o domínio sobre a vida. Mas a viagem, cara demais pro meu bolso, e os absurdos para a exigência do visto (como precisar de um valor XX no extrato pra garantir que eu não ia ficar lá clandestinamente) me causaram mais angústia do que empolgação. E eu vi que tinha algo de errado. Até ouvir a seguinte pergunta: "o sonho de ir pra lá é seu ou é dos outros?". Não era um sonho meu. E a frase me ajudou a ver que esta viagem ia ser apenas mais um sonho dos outros q eu adotaria.

Cinco minutos depois de ouvir a frase, os outros destinos foram decididos: Argentina e Uruguai. Mendoza + Buenos Aires + Colonia Del Sacramento + Montevideu.

As passagens foram compradas depois da quarta mudança nas datas de minhas férias, numa tentativa de que não houvesse a quinta alteração de data.

Depois que eu, toda feliz e contente, comecei a fazer planos, tentativas de planilhas de gastos e pesquisas por passeios e preços de hospedagem, descobri um negócio que tem me dado reações incoerentes: a Argentina será sede da Copa América, que vai durar bem o tempo que eu estiver no país.

A primeira reação foi balbuciar um palavrão no metrô, durante a descoberta. "As hospedagens vão acabar! Os preços vão subir! E o time do Brasil está uma m@#da!".

Depois, comecei a me acostumar com a história. "Ah, vai ter um monte de gente por lá. Ah, vai dar pra assistir os jogos. Oba, Mendoza é sede da seleção chilena!". Até vi a tabela de jogos pra saber quais deles poderia assistir.

Eu comecei a pegar birra da tal Copa América ao ver que os hostels que eu mais gostei já estavam todos reservados. Mas eu esqueci a birra ao ver outros endereços e tentar praticar a intuição ao escolher os hostels. (Sim, a gente precisa dela nessas horas. Foi na base da intuição que escolhi minhas hospedagens no Atacama, e ela não me enganou)

Tudo indica que, até chegar julho, eu vou gostar, amar, pegar birra e voltar a amar o fato de a Copa América ter escolhido o mês das minhas férias pra acontecer na Argentina. Todas as vezes em que isso acontecer, vou culpar o destino.

Ah. Também não posso deixar de observar que, antes de fechar as passagens, sonhei umas três noites com o Uruguai. Assim, sem nunca ter ido.

***

Eu achava que ia escrever sobre como tenho trabalhado melhor minhas angústias, os efeitos positivos da terapia e o fato (vitorioso) de ter ficado um sábado à noite em casa de maneira voluntária, achando o máximo ficar de pijama o dia inteiro - e depois de ter feito um bolo de cenoura digno de quem já pode casar. Mas hoje não é dia de fuçar angústias. Bom fim de semana a todos.





Domingo, Fevereiro 13, 2011

Faz tempo

Faz tempo que eu não vou ao cinema. (Só vi Avatar ontem e ainda por causa do sinal aberto do Telecine Premium).

Faz tempo que não vou a bons shows. Tem um hoje de graça do Manu Chao, aqui na Cachoeirinha (mais perto pra mim do que para os outros mortais paulistanos). Mas pelo jeito eu também não vou.

Fazia tempo que eu não dormia oito horas. Consegui ontem.

Faz tempo que eu queria ter um fim de semana livre. Nesse, eu consegui. Até agora.

Faz também muito tempo que eu quero me livrar de uns incômodos quilos. Consegui. Vou conseguir mais.

Faz tempo que eu quero muito da vida.

Fazia tempo que eu achava que estava perdida na vida. Hoje, acho que me encontrei - pelo menos até o próximo caminho novo.

Fazia tempo que eu achava que algumas coisas eram impossíveis. Hoje sei que não são.

E por muito tempo eu via muitas coisas como impossíveis. E nem todas são.

Faz tempo que eu não vejo tanta gente querida.

E também faz tempo que eu não vejo quem eu de fato nem gostaria de ver.

E nem faz tanto tempo que deixei de me culpar por algumas coisas das quais eu não tinha culpa.

E já faz algum tempo que eu ando ligando o botão do f¨da-se para as mais variadas situações.

Fazia tempo que eu não me sentia tão cansada.

Mas também fazia tempo que eu estava parada, acomodada, sem perceber o vigor que ainda era possível ter.

Não faz tanto tempo que eu saí da crise dos 30.

E já não era sem tempo. Daqui apenas dois dias, os 30 virarão 31.

E já faz tempo que esse blog existe. Seis anos? Tá, seis anos incompletos.

Confesso que já apaguei alguns textos deste blog. Todos os posts são confessionais, é fato. Mas os apagados não precisavam estar expostos.

Sim, eu me exponho aqui. Logo eu, tão reservada na vida "real".

E sim, eu releio posts antigos. Muitas vezes para ver como eu estava na época. Outras vezes, para me divertir mesmo.

Acho que esse é o meu grande divã.

E eu já pensei se deveria apagar todo este conteúdo. Que ele poderia não fazer mais sentido. Mas ainda faz. Mesmo com as atualizações esparsas - que também dizem respeito à minha vida.

E aí, deixei de me culpar.

Fica o conteúdo aqui para quem quiser ler. Para quem chegar aqui por meio de buscas do google como "música para chorar", ou "blog perla", ou "pós-endoscopia".

Fica aqui para quando eu quiser escrever qualquer bobagem mais elaborada que não caiba no twitter.

Fica aqui para os amigos, assim como minha casa, assim como meus dias de festa, assim como meus dias de melancolia. Fica aqui para que cada um aproveite como quiser.