Quinta-feira, Setembro 22, 2005

O show da Perla

Passei tantas horas nessa semana espremendo os neurônios do cérebro para falar sobre boa música, ouvindo muitos lados de um acontecimento e escrevendo com medo de parecer que estava na torcida que agora quero chutar o balde. Minha primeira idéia foi dançar ao som de Calypso pra parar de pensar. Mas era só cansaço, não era bebedeira. Então, vai aqui o post sobre o show da Perla. Convém lembrar que já fazem uns três meses que vi esse show. Posso ter perdido alguns fatos importantes no meio do caminho.

Pois é, eu vi um show da Perla. Era um domingo ensolarado e era uma festa de padroeiro aqui perto de casa. E de graça. Eu e a população moradora destes lados de Pirituba tivemos a mesma idéia. Festinha tipo quermesse durante o dia: barracas, comidas, argolas, tiro ao alvo e escorregador inflável (aliás, a nova mania nas quermesses de bairro). Ao final da rua, um palco enorme. Durante o dia, ele foi ocupado por duplinhas de dança formadas em academias lá de perto, concursos de cantoras mirins e toda essa coisa estilo Raul Gil, mas legitimamente made in Pirituba. Eu não sei se isso é motivo de orgulho. Mas é muito importante para poder se ter idéia do que subia ao palco.

A Perla aquele dia nem era a principal atração. Era uma das, mas o principal atrativo foi Frank Aguiar, que estava começando a tocar quando fui embora. Eu fiquei lá na frente espremida, com minha tia ao lado (ah, como será que está a Perla? Ela tem um vozeirão) vendo duplas neosertanejas que o nome eu não lembrei nem no dia, dançarinos de neocountry, uma neoapresentadora que provocou a ira de muitos que assistiam... Até chegar a estrela da tardezinha que já estava virando noite.

Já falei que TODOS só cantavam em playback? Ah, então. Ao vivo, só quem tivesse coragem de ir só no microfone. O único privilegiado a cantar ao vivo foi Frank Aguiar. E eu mais privilegiada ainda, por já ter ido embora.

Mas, voltemos ao show de Perla em playback. Expectativa. Emoção. “Acompanho a Perla há tanto tempo, vc viu aquele disco que eu tenho dela, né?”. Claro tia, ele já tocou até em algumas festas do vinil em casa. Junto com um do Abba. O vozeirão foi disfarçado pelo playback, mas vez ou outra ela soltava alguns acordes da garganta. Como em Chiquitita do meu amOOOOOOOORRR, eu vou te amar frNAAAAAAAANNDoooo e, claro, a clássica, a inesquecível, a definitiva galoPEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEeeeeEEEEEeeeEEEiiiiiRAAAAAAAA, nunca mais te esquecerEEEEEEEEEEEEiiii (...). Gente, ouvir Perla cantando Galopeira é indescritível. Nem se eu quebrasse a tecla E de tanto ecoar os gritos da multidão em Galopeeeira eu faria alguém ter idéia de como me senti vendo aquele ícone no palco ao lado do parquinho onde eu ia brincar quando eu era criança. Ta certo que hoje tá cheio dessas estrelas fazendo shows em festas dos anos 80, mas ver a mulher lá perto de casa tinha um ingrediente especial. Era como se a tranqueirada estivesse vindo a mim, e não o contrário. Enfim. Mas ainda não falei o melhor: ao agradecer, ela soltou um OBRIGADO PERUÍBE! Aí rolou um sorriso amarelo coletivo. “Como assim Peruíbe?”, “Xi, essa aí já está gagá, nem sabe mais onde faz show”, “Ah, mas é a Perla, vai”, “Puxa, como o cabelo dela continua lindo” foram alguns dos comentários seguidos à gafe.

Aí, a Perla recebeu um diploma de participação na festa (ah é – TODOS os convidados recebiam diploma de participação na festa, tipo pré-escola) e saiu. E, quando começaram a montar o palco pra receber o cãozinho dos teclados (vulgo Frank Aguiar), eu já estava a caminho de casa. Com minha tia e mais algumas vizinhas, todas encantadas com a Perla.

Não vou aqui cair na hipocrisia de dizer que só fui pra fazer companhia à minha tia. Eu fui porque quis ver a Perla também, oras. E foi ótimo, porque tive mais essa história pra contar! A vida fica muito mais divertida depois de se ouvir a Perla cantando Galopeira, isso eu garanto.


Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Poeira vermelha

Eu vi 2 Filhos de Francisco. E eu também chorei. Tudo bem, não tenho muito crédito depois de ter chorado em Olga. Mas, assim como Olga, 2 Filhos de Francisco tem cenas feitas para chorar. E a cena mais cortante de todas foi a vinda da família Camargo para Goiânia. Não vou falar sobre o visionário e quase maluco Francisco, todo mundo já falou sobre isso. Só sobre a saída de uma família com muitas crianças da região de Pirenópolis para uma desconhecida Goiânia.


Em Pirenópolis, a família toda vivia em condições modestas, mas não passava fome e toda a fonte de sustento vinha da roça. Mas o sogro de Francisco, dono do terreno e da casa, não gostava das maluquices do genro. Ou ele lavrava as terras decentemente ou saía. Francisco saiu com toda a prole. E foi pegar um ônibus naquela estrada reta que corta o cerrado, sob sol e poeira vermelha. E entra de fundo a fantástica “Poeira Vermelha”, de Tião Carreiro e Pardinho, que só termina quando a família chega a Goiânia, desconhecida, feia, com gente doente, com casas feias e com tempo chuvoso.

Não sentiu o olho lacrimejar? Tudo bem, não vou dizer que você não tem coração ou que tem o coração peludo. Mas, pra mim, cortou fundo. Os minutos dessa seqüência me fizeram relembrar todas as histórias que já ouvi, aquelas que presenciei, as idas e vindas da Bahia (a minha Bahia fica no Cerrado, e não em Salvador), as famílias inteiras que lotavam o ônibus pra tentar a vida em São Paulo, as famílias que iam passear felizes no interior e aquelas que, tristes, voltavam de vez para onde tinham saído, sem conquistar quase nada.

As grandes cidades já provocaram sonhos que nunca puderam sustentar. Felizmente, parece que a coisa está mudando, ainda que aos poucos. Ah: no mais, o filme é muito bem feito. E muitas críticas já foram publicadas, é só procurar no Google. Aqui, ficam essas impressões. E outra coisa: acho que a letra de Poeira Vermelha toca ainda mais fundo em quem consegue imaginar as cenas as cenas de carro de boi, de boiada em busca de ribeirão e de “chuva caindo em cascata na terra fofa do chão / Virando em lama a poeira, poeira vermelha / Poeira, poeira do meu sertão”


Quinta-feira, Setembro 15, 2005

Justiças e injustiças

O ato de maior justiça dessa semana, em minha torcida e opinião, foi a prisão do Paulo Maluf, que está vendo o sol nascer quadrado a poucos quilômetros da minha casa. (A propósito: ontem, um cobrador abriu a janela, colocou o pescoço pra fora na altura da Ponte do Piqueri e perguntou: "É aí que o Maluf está, né? Bem feito!")

A maior injustiça: segundo lugar para Achou, interpretada lindamente por Ceumar e composta por Luiz Tatit e Dante Ozzeti. Ontem, no Festival da Cultura.

Sábado, Setembro 10, 2005

Sectarismos e Machado de Assis

Hoje, subindo a escadaria do metrô Anhangabaú, quase soltei uma gargalhada sozinha.
Vi um menino, de estilo todo rapper, com uma camisa branca e os dizeres, em maiúsculas: EU ODEIO LOIRAS.
Acho que não devo ter conseguido ficar séria. E, mesmo sendo loira, a mensagem do menino não provocou minha ira, ódio, raiva ou qquer outro sentimento capaz de fazer aumentar os ácidos estomacais. (Os engraçadinhos podem dizer que, por ser loira mesmo, eu q não entendi. Sou vacinada contra essas tiradinhas espirituosas). Só que fui pensando no inusitado da cena no caminho. Como odiar alguém que não conhecemos? Pela imagem que foi passada? Pelo que imaginamos que a pessoa seja?
Nem vou entrar na discussão do dito racismo às avessas, porque racismo não é roupa pra ter lado direito e lado avesso. Mas é engraçado imaginar um protótipo de pessoa que concentre todas as características odiosas da humanidade e destinar todo seu ódio a ela. No fundo, a camisa do moleque fazia isso. Com o estilão rapper, ele deve odiar também os playboys, a má distribuição de renda (ainda que não consiga exemplificar com essas palavras), as condições em que vive, as dificuldades que encontra.
Ou não. Vai que ele só odeie loiras mesmo. Direito dele, ué. Mas, ainda assim, sempre que lembrar da camisa do moleque, vou querer cair na gargalhada.

***

O post tem temas distintos, mas ambos no clima de "querido diário". É que não queria postar duas vezes. Acabei de ler hoje Esaú e Jacó, livro que mora em minha bolsa há pelo menos 3 meses. O que não tira o mérito nem do livro e nem do autor, Machado de Assis. O cara é muito bom, destrincha personagens com perfeição e tem ironia em doses justas distribuídas ao longo de todas as narrativas. Depois dessa leitura, decidi que o próximo será Memorial de Aires, pra completar a seqüência do Machadão, iniciada com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Em seguida, vieram Dom Casmurro e Quincas Borba. Aí depois tento procurar Guimarães Rosa. Ou o que cair na minha mão.



Terça-feira, Setembro 06, 2005

Recomendação do dia

Um barraquinho de vez em quando é benéfico à saude. Ele:

- Livra o estômago de mais motivos para sentir raiva (no caso das pessoas que sentem com o estômago, como eu);
- Torna-se uma pequena vitória para os tímidos;
- Exterioriza indignação;
- Mostra ao outro (e a quem mais ouve) que você tem voz, e pode falar alto, sim,
- Rende histórias divertidas

Claro que pode causar danos se a outra pessoa estiver disposta a ir às vias de fato (bater mesmo). Felizmente, nem sempre é o caso. Bons barracos.


Sábado, Setembro 03, 2005

Diálogos pós-endoscopia*

* baseada em fatos verídicos.

Na sala do exame

Enfermeira: Abra a boca. Esse spray anestésico é a pior parte do exame
Paciente: Sei.
Enfermeira: Vire de lado. Me dê seu braço direito. Puxa, não consigo encontrar sua veia.
Paciente: Ninguém consegue...

(A enfermeira tenta achar a veia na divisão entre o braço e o antebraço. Depois, nas costas da mão. Dá umas batidinhas e consegue aplicar a anestesia. Enquanto isso, a paciente olha pro relógio da sala de exame: 8h55. “Quando será que essa anestesia fará efeit... zzzzz”)

Enfermeira: Pode se levantar.
Paciente: Hic. Hic.
Enfermeira para Acompanhante da Paciente: Ela está bem. Esse soluço passa logo.
Paciente: Hic. Hic.
Acompanhante da Paciente: Ta tudo bem?
Paciente: Sim, está. Mas acho que não fizeram o exame.
Acompanhante: Como não?
Paciente: Eu não vi. Eu não vi me entubarem.
Acompanhante: Ah, então você quer fazer de novo?
Paciente: Ué, mas não fizeram. Como vou fazer de novo?

(Acompanhante ri, gargalha. Paciente nem percebe)

Acompanhante: Já está boa pra andar? Quer ir para a cantina?
Paciente: Eu tou boa, tia. Tou pronta pra balada!
Acompanhante: O quê?
Paciente: Tou pronta pra balada!
Acompanhante: Então vamos pra cantina. Tem q pagar o exame primeiro.

No guichê da secretaria.

Funcionária da secretaria: Foi só a endoscopia ou tb teve biópsia?
Paciente: Hã?
Funcionária da secretaria: Foi só a endoscopia ou tb teve biópsia? Você saiu de lá com algum potinho?
Acompanhante (intervindo): Não, não teve potinho.

Funcionaria da secretaria. Ah, então o valor é tanto. Você pode assinar aqui?
Paciente: Posso. (assina o papel)
Acompanhante: Me dá isso aqui pra eu guardar.

Dois passos à frente:

Paciente: Tia, meu cartão de crédito!
Acompanhante: Está aí na sua bolsa, já guardei.
Paciente: Mas eu não paguei, eu preciso assinar o canhoto!
Acompanhante: Pagou sim, quer pagar duas vezes?
Paciente: Não paguei. Vou lá.
Acompanhante: Não vai a lugar nenhum. Vamos pra cantina, você vai beber um leite.
Paciente: Por que você está me segurando? Eu estou bem!
Acompanhante: Claro que está. Beba esse leite.

Durante a ida ao ponto de ônibus.

Paciente: Tia, a enfermeira não achou a minha veia.
Acompanhante: Hm.
Paciente: É, ela disse que se ela não achasse a veia, o médico que ia aplicar a injeção.
Acompanhante: Sei.
Paciente: Aí ela começou a bater aqui ó (repete os tapinhas nas costas da mão) e achou minha veia.
Acompanhante: Tá bom.

Cinco segundos depois.

Paciente: Tia, a enfermeira não achou a minha veia.
Acompanhante: Eu sei, você acabou de me contar essa história.
Paciente: É, ela começou a bater aqui ó, e...
Acompanhante: ...e só depois achou sua veia.
Paciente: Foi isso mesmo. Me dá minha bolsa?
Acompanhante: Pra quê?
Paciente: Eu quero ver se o cartão está aí.
Acompanhante: Eu já não falei que te dei o cartão?
Paciente: Mas eu não assinei!
Acompanhante: Olha o ônibus, vamos subir.

No ônibus, sentadas no banco.

Paciente: Me dá minha bolsa?
Acompanhante: Jesus Cristo, toma.
(Devagar – porque nem dava pra ter movimentos rápidos – a Paciente abre a bolsa. Procura a carteira e finalmente confere: o cartão de crédito estava lá)
Paciente: É, o cartão está aqui... Mas eu não assinei!
Acompanhante: Tsc, tsc... O que te deram lá dentro? Você engoliu um tubo ou uma fita?
Paciente: Por que?
Acompanhante: Todo mundo saiu grogue, caladinho. Só você que saiu tagarela desse jeito! Logo você, que nem é de falar tanto!
Paciente: Ah, mas deixa eu falar, vai... Eu tou pronta pra balada!

(Acompanhante gargalha enquanto ouve de novo a história da veia que ninguém achava. Depois de duas horas de sono, passa o efeito-bobeira da Paciente. E, durante o resto de sua vida, a endoscopia feita será a alegria da casa, tema de assunto para toda a família)



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