Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

Natal e sonho

Eu acreditava em Papai Noel. Em parte, graças à engenhosidade dos meus pais. Em outra parte, por causa das propagandas natalinas. Mas acho que muito se deve ao fato de eu sempre ter sido muito distraída, vivendo em mundinhos paralelos, assim como qualquer criança avoada (que se torna uma adulta avoada). O fato é que eu acreditava no velhinho gorducho de barbas brancas que trazia brinquedos em um trenó puxado por renas. E isso acontecia porque eu ganhava os presentes deles. Bobinha que só, nem percebia que, durante os cochilos, meus pais iam colocar o brinquedo debaixo da árvore de Natal, ao lado do presépio. E que o presente era justamente o que eu tinha pedido!!!! Me lembro que um dos melhores foi um caderno de desenho enorme, cheio de folhas brancas e uma caixa de canetinhas. Era bem o ano em que eu ia começar a estudar na pré-escola. E lembro meu gosto por papel e caneta era maior que os das outras crianças da mesma idade. Eu queria rabiscar, escrever, desenhar... Até criava histórias em quadrinhos, aproveitando as páginas do caderno. E os melhores eram aqueles sem pauta, sem linhas pra limitar ou atrapalhar o desenho. E as canetinhas eram muito melhores que os lápis de cor: a ponta não quebrava e a cor ficava mais viva, mais bonita. Pois é, foi um conjunto de canetinhas que fez a minha alegria no final daquele ano (teria sido de 85?).
Em outra vez, não foi durante um cochilo que deixaram o presente na cozinha. Todos estavam se preparando pra ir à casa de algum parente, e alguém teve a genial idéia de sair comigo primeiro. Esperei minha mãe na rua e, quando a vi trancando o portão com cadeado, fiquei apavorada. “Mas como o Papai Noel vai entrar?? O portão está trancado!!!”. Com a calma usual, meu pai respondeu. “Não acredito, você já esqueceu que o Papai Noel voa?” “Como assim voa? São as renas que voam”. “Mas se as renas voam, ele também voa. E ele vai passar pela parte de cima do portão, não vai precisar dele aberto”. A desculpa serviu quando vi o presente, de novo, debaixo da árvore. “Puxa pai, ele voou mesmo!”.
Devo ter deixado de acreditar com uns 7 ou 8 anos. Foi quando me falaram que o coelhinho da Páscoa não existia. Por extensão, o Papai Noel também não. Eram os pais que compravam os presentes para os filhos. Foi aí que eu entendi porque meu pai não dava todos os presentes que eu pedia, principalmente os mais caros. “Filha, esses presentes o Papai Noel leva para as crianças que precisam mais... aquelas que quase não têm nada. Nós já temos muita coisa”. E eu, claro, acreditei. Mas o interessante é que, desde pequena, eu fui estimulada para ser solidária. Nunca mais pedi bicicleta nem videogame, muito menos o Pense Bem. Eu lembrava sempre do que o meu pai tinha dito. E hoje vejo que essa foi um jeito até bonito de se dizer um não para uma filha.
Lembrei de contar isso ao ver uma menina que mora na minha rua dizer que não acreditava em Papai Noel. Que tudo isso era besteira, enganação. Ela deve ter uns 7 anos, mais ou menos a idade que eu tinha quando deixei de acreditar. Mas me deu tristeza ouvir isso. Foi um comentário com realidade demais para uma criança de 7 anos. Foi quando eu pensei que muitas crianças já nasceram sem o direito à fantasia. Que quase ninguém contou histórias para elas, e que por isso elas mesmas não criaram suas histórias preferidas, mudando o final delas conforme a imaginação pedisse. E como é o mundo de alguém sem histórias? Sem contos?
Eu defendo o direito ao uso da imaginação, principalmente com as crianças. Contar histórias, inventar príncipes e castelos, heróis salvadores e bruxas malvadas. Papai Noel, Coelho da Páscoa, fadas do dente, fadas de qualquer coisa, mágica, muita mágica. Quando crescem, todos descobrem que o mundo é também árido. Mas o sonho pode, pelo menos, ajudar a combater e aliviar os concretos de nossas vidas.

Quinta-feira, Dezembro 15, 2005

And so it is

A tristeza até serve pra alguma coisa. Me serviu para descobrir, por exemplo, Damien Rice, irlandês que gravou seu primeiro – e, até agora, único – disco em 2002 (O), mas que se tornou mais conhecido no início deste ano, com a inclusão de Blower´s Daughter na trilha de Closer. Eu não vi Closer. Por isso, só descobri Rice no último domingo, zapeando a TV, quando parei na MTV. Era um clipe de uma música linda e triste, triste... Com cenas de Closer. Identifiquei a melodia com algo que já tinha ouvido na novela das 20h (21h?). Aí, graças a Orkut e Google, descobri que estava certa: a novela Belíssima tem uma (a)versão da música, na voz de Simone, com letra adaptada de Zélia Duncan. Adoro Zélia Duncan, mas traduzir “and so it is” para “então me diz” me provoca arrepios. Então, pra não deixar de gostar de Zélia, prefiro nem me aprofundar sobre o resto da letra (que não vi e não quero ver).
Aí, como toda música que descobrimos, ela tem me perseguido nestes dias. Em parte, por culpa minha mesmo. Já entrei em comunidade do Orkut e até dei busca em cifras. Mas, por outro lado, ela veio até mim. Até a encontrei em um ITunes da firrrma. Isso é um sinal. Não sei de quê, mas é.
Já ouvi o CD todo do rapaz. E é lindo. Muito bom pra embalar fases não tão alegres da vida. Violão, folk, melancolia... Já teve gente que comparou o tipo de música ao som do Coldplay. Até faz sentido. Mas acho que este CD, na minha prateleira, teria a mesma importância que tem o 10.000 Maniacs Umplugged. Ou o da Natalie Merchand. Seria vital.

***

Hm, faltam dois meses para os 26. Será que a crise dos 25 chegou com 10 meses de atraso?
Sugestão de presentes: um ingresso pro U2, que tem shows confirmados para 21 e 22 de fevereiro. Não vi Pearl Jam. Preciso de um consolo.

Segunda-feira, Dezembro 12, 2005

Tristeza natalina

Começou quando eu vi os primeiros enfeites natalinos ainda no começo de novembro. Em shoppings, claro. Aumenta conforme eu vejo o ano acabar. Nem tanto pelo ano estar no fim. Mas sim pela obrigação de reunir a família e parecer feliz. Eu gosto muito da minha família. Mas queria sumir, estar bem longe. Fechar os olhos, desaparecer e voltar só nos primeiros dias de janeiro. Tudo bem que o calendário já teria mudado e que eu já estaria mais perto dos 26. Pelo menos, a obrigação de se fazer uma ceia e desejar uma feliz data já teria passado...
Acho que serei a pior pessoa do mundo neste Natal. Não, não vou colocar gatos em sacos e atirá-los em rios (hm, nem é má idéia) e nem fazer maldadezinhas. Serei pior porque não serei boa companhia. Já ando meio insuportável.
Este blog está prestes a completar um ano. E ainda não sei bem pra quê o criei.
Enfim. Maldita tristeza natalina.

Domingo, Dezembro 04, 2005

ACABOU! É TETRA! É TETRAAAA!

Lado a lado, o mais feio jogador de futebol do Corinthians (ou do campeonato? ou do mundo?) e o mais lindo (na história do Corinthians, já falei isso). Ambos tetracampeões, assim como eu e um monte de gente que lutou contra a secagem coletiva nesses últimos tempos. Podem falar de Sveitaço, de juízes ruins (não temos nada com isso), de malas pretas. Os colorados podem até entrar na justiça (mas perderam do rebaixado, hehehehe), o que importa é que a taça vai pro Parque S. Jorge. Tetra! Tetra! Teeetraaa!!!!!

Um bebê!

Passou um tempo sem emprego, na casa de primos. Enquanto isso, fez companhia a uma tia que veio da Bahia em busca de tratamento, entre a limpeza da casa e comida para os parentes. Até lhe indicarem uma vaga em uma família de Moema, zona sul da cidade. Primeiro, era pra ficar com uma senhora, já idosa. Chegou a viajar com a filha dessa senhora para Curitiba. Depois, trocou de casa, mas na mesma família. Ia ficar com um jovem casal que tinha um filho de meses. Ao entrar na casa, se encantou com a criança. “Um bebê! Que bom que vim pra cá!”, pensou. Aos 25 anos, tinha muita afinidade com crianças. Pensava em filhos, mas não ainda em casamento. Foi até bastante cortejada na Bahia. Mas recusava todas as propostas. “Você tem muita soberba”, diziam as primas, ansiosas em mudar o estado civil de Maria. “Posso até ter. Mas não caso com primo e nem com ninguém daqui”. “Vai morrer sem ninguém”, diziam alguns, divididos entre o praguejamento e o pragmatismo. Também não gostava de festas. Preferia os bichos. E, claro, as crianças. Cuidou com todo carinho do irmão mais novo, nascido 10 anos depois dela e ainda criança quando ela tomou a estrada rumo ao Sul.

Anos depois, lembra que foram os anos mais felizes da vida como empregada. Passeava, brincava e cuidava da criança, que se apegava cada vez mais à babá. Chamava-a de “Ia” – primeiro, por não conseguir pronunciar “Maria”, depois, porque virou apelido mesmo. O cuidado dispensado a ele era imenso. Proibiu – do alto de sua autoridade de babá – cachorros em casa. Os pêlos podiam provocar alergia ao garoto. Foi prontamente atendida pela patroa. Enquanto cuidava do menino, o colocava em algumas atividades comuns à sua rotina, como ir à igreja. Certa vez, no litoral, encontrou uma igreja e levou o menino à missa. Dias depois, os patrões descobriram e ficaram apavorados. Em meados da década de 1970, um surto de meningite atingiu a cidade e as autoridades alertavam à população para que evitassem aglomerações. Porém, nem Maria nem o garoto pegaram a doença. “Gente apavorada”, sempre pensou a babá.

Três anos depois, saiu da casa do garoto e passou a trabalhar para uma tia dele. Por isso, não perdeu o contato: ele passava as tardes com ela e até viajavam. Maria só saiu daquela casa para se casar. Curiosamente, o primeiro contato com o futuro marido foi feito por foto, e durante uma viagem feita a Campos do Jordão. Fora “apresentada” ao moço por uma tia dele, que também era empregada doméstica, enquanto o bebê dormia (e ambas tratavam de passar o tempo – a tia, com as fotos dos parentes, ela, olhando tudo pacientemente). Chamou-lhe a atenção o retrato de um jovem loiro, alto e de óculos. “Que rapaz bonito”, pensou. A tia, orgulhosa, só falou coisas boas a respeito do moço. “Responsável, trabalhador, inteligente... E solteiro!!! Ainda não casou!!”. A propaganda era perfeita para o produto. E o rapaz povoou a curiosidade da jovem babá. Que, para os padrões do sertão baiano, nem era mais tão jovem assim para casar. No dia seguinte, ela perguntou novamente sobre a foto do sobrinho elogiado. Para alegria da tia. “Olha só! Gostou, hein?”. Mesmo envergonhada, Maria olhou de novo para o jovem loiro da foto. E ele não saiu mais de seu pensamento.