Terça-feira, Maio 16, 2006
Depois da histeria coletiva
Até ontem, eu achava que um dos piores dias que enfrentei em São Paulo foi há pelo menos sete anos, quando a cidade teve mais uma chuva de horas que alagou o túnel do Anhangabaú. Só fui ver as cenas dos carros boiando em casa. Mas, naquele dia, eu estava a poucos metros dali. Trabalhava no Centro e fui liberada mais cedo, porque a cidade estava um caos. Fiquei horas no ponto esperando por um ônibus e, quando ele veio, as pessoas esqueceram a ordem da fila e a educação e se estapeavam para conseguir uma vaga. Não cabia mais nem uma agulha. Não esqueço também do maluco que quis descer ainda perto do Minhocão: quase foi linchado. Poderia ter vindo a pé e não ocuparia mais um lugar no ônibus, era o que muitos diziam. Foi o inferno.
Mas, perto de ontem, aquele dia foi só um cursinho preparatório. Pior que o tumulto pra voltar pra casa foi o clima de insegurança disseminado durante todo o dia. Todo mundo que acompanhou algum tipo de comunicação sabe: o PCC se rebelou contra a transferência de alguns líderes da facção e deu início a um final de semana violentíssimo, com rebeliões, ataques a delegacias e assassinatos. Deu medo, deu revolta, mas a segunda-feira vinha aí e a vida tinha de seguir normalmente.
Ontem pode ter sido tudo, menos normal. Não ouvi barulho de tiros, bombas ou gritos aterrorizados. O terror estava silenciosamente entre todos, entre as ligações feitas, entre os olhos arregalados e, pior, nos boatos repassados por e-mail, msn, telefone, boca-a-boca e em todas as formas de comunicação existentes.
De manhã, eu consegui ir ao trabalho. Os trens funcionavam em velocidade reduzida. Mas funcionavam. Só que muitos terminais de ônibus foram paralisados. Quem deu ordem de paralização? O PCC? Algum doido de escopeta? Ou alguém que aproveitou o pânico pra falar "ó, pára tudo senão a gente mata geral?"
Durante o dia, agências bancárias foram atacadas. O metrô Artur Alvim, na Zona Leste, também. Depois, circulou a notícia de tiroteio e morte nos metrôs Paraíso e Ana Rosa, desmentidos em seguida. O Mackenzie foi atacado. Segundos depois, vinha a notícia de que a FAAP também. Na mesma hora, liguei para meu tio que trabalha ao lado da faculdade. Mentira. Mais um boato.
E assim foi ao longo do dia. Reféns na Uninove da Vila Maria, metrôs depredados, toque de recolher na Teodoro e até em Pirituba. A partir das 15h, todas as empresas começaram a liberar seus funcionários. Eu saí às 17h. E peguei o trem mais lotado que já tinha enfrentado até então. Caminhei 40 minutos até pedir carona pra chegar em casa. Dava pra contar nos dedos o número de ônibus que passaram por mim, mas nem os dedos de todos os que estavam indo pra casa a pé pareciam ser suficientes pra contar quantos estavam naqueles ônibus.
Cheguei em casa com minha mãe desesperada. Recebi ligações de parentes fora de S. Paulo também horrorizados. Vi o atual governador dizer que tudo estava em controle. E não suportei ver os carniceiros do pseudojornalismo darem as soluções para o crime na cidade. Dormi aliviada por ter chegado em casa, mas com muita raiva de ver o que fizeram com essa cidade pulsante que virou deserta.
Hoje as coisas ainda não estão normais. O que parece é que todos estão fazendo um esforço para voltar à rotina. Mas alguma coisa o paulistano perdeu nessa história. Ainda não sei o que foi. Não foi segurança, porque a cidade, como qualquer metrópole, nunca foi totalmente segura. Não foi também a calma. Mas talvez tenha sido aquele mínimo de tranqüilidade, aquela que nos leva a fazer planos simples, como onde tomar uma cerveja com os amigos no dia seguinte. A especulação em suspender a Virada Cultural, prevista para a próxima semana, é um exemplo disso. Já vi muita gente dizendo que ia desistir dos shows - que serão ótimos e muitos de graça. Estamos todos reféns. Não estamos apenas inseguros por conta da violência ou do PCC. Estamos inseguros porque, enquanto acreditamos em tudo (boatos e lendas), não acreditamos mais em nada (Estado, Polícia ou políticas públicas para conter a violência).
***
É nessas horas que eu tenho certeza de que não terminarei meus dias em São Paulo.
Mas, perto de ontem, aquele dia foi só um cursinho preparatório. Pior que o tumulto pra voltar pra casa foi o clima de insegurança disseminado durante todo o dia. Todo mundo que acompanhou algum tipo de comunicação sabe: o PCC se rebelou contra a transferência de alguns líderes da facção e deu início a um final de semana violentíssimo, com rebeliões, ataques a delegacias e assassinatos. Deu medo, deu revolta, mas a segunda-feira vinha aí e a vida tinha de seguir normalmente.
Ontem pode ter sido tudo, menos normal. Não ouvi barulho de tiros, bombas ou gritos aterrorizados. O terror estava silenciosamente entre todos, entre as ligações feitas, entre os olhos arregalados e, pior, nos boatos repassados por e-mail, msn, telefone, boca-a-boca e em todas as formas de comunicação existentes.
De manhã, eu consegui ir ao trabalho. Os trens funcionavam em velocidade reduzida. Mas funcionavam. Só que muitos terminais de ônibus foram paralisados. Quem deu ordem de paralização? O PCC? Algum doido de escopeta? Ou alguém que aproveitou o pânico pra falar "ó, pára tudo senão a gente mata geral?"
Durante o dia, agências bancárias foram atacadas. O metrô Artur Alvim, na Zona Leste, também. Depois, circulou a notícia de tiroteio e morte nos metrôs Paraíso e Ana Rosa, desmentidos em seguida. O Mackenzie foi atacado. Segundos depois, vinha a notícia de que a FAAP também. Na mesma hora, liguei para meu tio que trabalha ao lado da faculdade. Mentira. Mais um boato.
E assim foi ao longo do dia. Reféns na Uninove da Vila Maria, metrôs depredados, toque de recolher na Teodoro e até em Pirituba. A partir das 15h, todas as empresas começaram a liberar seus funcionários. Eu saí às 17h. E peguei o trem mais lotado que já tinha enfrentado até então. Caminhei 40 minutos até pedir carona pra chegar em casa. Dava pra contar nos dedos o número de ônibus que passaram por mim, mas nem os dedos de todos os que estavam indo pra casa a pé pareciam ser suficientes pra contar quantos estavam naqueles ônibus.
Cheguei em casa com minha mãe desesperada. Recebi ligações de parentes fora de S. Paulo também horrorizados. Vi o atual governador dizer que tudo estava em controle. E não suportei ver os carniceiros do pseudojornalismo darem as soluções para o crime na cidade. Dormi aliviada por ter chegado em casa, mas com muita raiva de ver o que fizeram com essa cidade pulsante que virou deserta.
Hoje as coisas ainda não estão normais. O que parece é que todos estão fazendo um esforço para voltar à rotina. Mas alguma coisa o paulistano perdeu nessa história. Ainda não sei o que foi. Não foi segurança, porque a cidade, como qualquer metrópole, nunca foi totalmente segura. Não foi também a calma. Mas talvez tenha sido aquele mínimo de tranqüilidade, aquela que nos leva a fazer planos simples, como onde tomar uma cerveja com os amigos no dia seguinte. A especulação em suspender a Virada Cultural, prevista para a próxima semana, é um exemplo disso. Já vi muita gente dizendo que ia desistir dos shows - que serão ótimos e muitos de graça. Estamos todos reféns. Não estamos apenas inseguros por conta da violência ou do PCC. Estamos inseguros porque, enquanto acreditamos em tudo (boatos e lendas), não acreditamos mais em nada (Estado, Polícia ou políticas públicas para conter a violência).
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É nessas horas que eu tenho certeza de que não terminarei meus dias em São Paulo.
Comments:
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Vilma: seu relato foi tão bom q vou indicar lá no Maio. Estava esperando ler um deste. Espero q as coisas estejam melhores hoje.
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