Segunda-feira, Junho 26, 2006

Pitacos sobre Copa e assuntos relacionados

Agora é que começou a fase mais legal da Copa, a dos mata-matas. A rotina dos jogos não tem mais times da expressividade de Togo ou Trinidad Tobago. Mas isso também não é garantia de espetáculo. Entre uma cochilada e uma ida à cozinha, eu assisti alguns pedaços de jogos. Não vi o Beckham vomitando (credo). Mas um dia antes vi o México dar um sufoco na Argentina, e fiquei feliz. Eles não são tudo isso. Na realidade, eu torci mesmo pra ir pros pênaltis (é o máximo torcer pro circo pegar fogo qdo a vitória é indiferente). Queria que a Argentina passasse pras quartas pra tomar um couro da Alemanha. Espero que isso aconteça. Hoje também, entre uma piscada mais longa e outra, vi a pancadaria entre Portugal e Holanda. Se fosse algum latino-americano-africano que fizesse essa lambança, seria chamado de troglodita que resistiu à civilização. Mas, olha só, foram dois países colonizadores do Brasil (se bem me lembro das aulas de história, a Holanda dominou a regiáo de Pernambuco por um bom tempo. Recifenses, me corrijam!). Será que isso explica algo?

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Invariavelmente lembro do meu pai durante essas overdoses de jogos. Foi dele que herdei o gosto pelo futebol e o time de coração. Também tive como espólio o gosto pela teoria das conspirações. A diferença é que ele acreditava piamente em todas elas. Veja só, ele odiava o Sócrates. "Como um corintiano pode odiar o Sócrates?", pode perguntar qualquer um que saiba um pouco da história do clube e da seleção. Para o meu pai, era simples. O Sócrates ajudou a entregar o jogo para a Itália em 1982 porque já estava com um contrato acertado pra ir jogar no País. Pra não estragar a festa dos caras, fez corpo mole, era o que ele explicava. Então tá certo. Outro que caiu na antipatia eterna do "seu" Francisco foi Zico, que ganhou a carinhosa alcunha de Zicuzinho. Pelos mesmos motivos que o Sócrates, mais um agravante fundamental: só tinha sido craque no Maracanã, pra carioca ver. Longe do Flamengo, não fez mais nada. Pé frio, azarão.
Isso porque o seu Francisco faleceu bem antes de ver o 4x1 do Brasil em cima do Japão... de Zico! Que não ganhou nenhum ponto e decepcionou quem apontava o país como possível surpresa da Copa.

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PS: O seu Francisco faleceu um dia depois do Palmeiras eliminar o Corinthians na Libertadores pela segunda vez, nos pênaltis. Ninguém sabe com quanto gosto eu torci pro Boca Juniors na final do torneio daquele ano. Principalmente depois de ver os meus vizinhos mais barulhentos assando espetos na calçada, com a televisão na rua e os uniformes palmeirenses, comemorando vitória antecipada.
Isso porque eu nem sonhava com o "intercâmbio" que aconteceria anos mais tarde, com a vinda de Tevez pro Timão e com a transformação dele em ídolo.



Quinta-feira, Junho 15, 2006

Filosofia no trem

Quem fala pouco tem fama de ser bom ouvinte. Não tenho argumentos científicos/racionais para comprovar esta teoria, mas me enquadro neste grupo. E, mesmo quando nem faço questão de ser tão boa ouvinte assim, as coisas chegam até mim. Não é raro pessoas que nunca vi na vida conversarem comigo e contarem looongas histórias sem que eu faça uma única pergunta. Fico lá, como platéia para monólogo. Em alguns casos, é incômodo. Mas em outros é bem divertido. Como o que aconteceu na semana passada. No trem. Claro.

Uma senhora bem magra e esguia sentou em um banco na minha frente. E a viagem seguiu com aquele silêncio sonolento das 9h da manhã. Até que esta senhora viu um banco vazio e avisou para uma moça que estava em pé: “Vai lá sentar, filha! O lugar ta vazio!”. A moça foi. E esta foi a deixa para que a senhora começasse a conversar comigo.

“Ah, eu não posso ver gente assim em pé quando tem lugar vago. Pode ser jovem, pode ser velho. E jovem também tem que descansar. Trabalha, estuda, não tem tempo pra dormir... Precisa sentar quando tem lugar vago. Não é só velho não”.

E a conversa de mão única rendeu bem umas cinco estações. Até ela contar que a patroa da casa onde trabalha tinha sido boazinha demais com ela no dia anterior. Sem motivo aparente. O causo foi precedido por uma das melhores pérolas que já ouvi no ano: “muita farofa é sinal de pouca carne!”. Memorizei e fui repetindo a frase até chegar no trabalho. Ela virou meu nick de msn. E nem sei o nome da senhora que fez a observação tão certeira. Claro que ela não foi a inventora da frase. Mas é incrível como algumas coisas tão curtas e rasteiras podem definir tão bem diferentes situações.

Ah: a frase, no caso, era pra contar que a patroa a liberou às 17h em pleno dia da estréia do Brasil na Copa do Mundo – quando a maioria das empresas começou a liberar a partir das 14h. “Filha, você vê se tem cabimento? No próximo jogo, eu vou querer sair na mesma hora que todo mundo! Eu também quero assistir! Não gosto de jogo, mas agora eu quero ver! Vou ficar bem esperta na sexta-feira...” “Não, vai ser na quinta-feira”, eu interrompi (talvez a única vez em que fiz isso durante todo o monólogo). “Na quinta-feira, ä 16h. Peça pra sair às duas da tarde, todos estão fazendo isso mesmo!”.

“É verdade! Esse povo só quer explorar a gente!”, disse a senhora. Ela levantou e desceu uma estação antes de mim. E ajudou a melhorar o meu péssimo humor matinal neste dia com apenas uma frase empregada de simbologia e extraída da filosofia popular. Pra quê Sócrates, Platão ou Jung?

A frase dividida no msn ajudou a suscitar idéias. Uma delas, que veio daqui, é fazer um livro com estas expressões fotografadas, inspirado no Pequeno Dicionário de Expressões Idiomáticas (que eu ainda vou ter). O livro pode reunir outras preciosidades, como “não se acende vela pra defunto ruim” ou “mais sério que cachorro andando de barco” (ambas trazidas ao meu conhecimento por obra de meu tio).

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O jogo que causou indiretamente a fúria da filósofa do trem foi Brasil X Croácia, que eu tanto quis ver. 1 x 0 minguado, mirrado, que quase virou empate. Rendeu três pontos e também a boataria em torno de Ronaldo: gordo? Com febre? Com gastrite? Tontura? Tenho medo do desdobramento desta novela.


Domingo, Junho 11, 2006

Chaves no léxico popular

Dia desses, no trabalho, me deparei com uma pergunta que uma jornalista fez pra um de nossos clientes. “O que fazer quando se tem a sensação de que ninguém vai com a nossa cara?”, ou algo do tipo. Até aí, tudo bem, porque a pergunta era pertinente para o assunto que seria abordado. Só que a frase me lembrou uma outra coisa que, em princípio, não tinha absolutamente nada a ver com o assunto tratado. Fiquei pensando na influência que a dublagem dos programas do Chaves em português tiveram na nossa vida e nas expressões que usamos diariamente.

Eu não estou sob efeito de substâncias narcóticas, antes que alguém levante esta conclusão precipitada. Eu cresci assistindo Chaves (e uma rápida fuçada no orkut mostra que muita gente fez o mesmo). E algumas expressões muito usadas hoje eu ouvi primeiro pela voz do Quico, Chaves ou Dona Florinda. “Você não vai com a minha cara???” é uma delas. Até então, mesmo com a vida social limitada às idas e vindas da pré-escola, eu não tinha ouvido essa frase. Até começar a ouvir a molecada na escola falar, o motorista da perua, minha mãe, meu pai e a dona Maria da venda. Depois de um tempo, nem era preciso mais tradução pra frase. “Não ir com a cara” era não ir com a cara mesmo, não gostar, pegar implicância.

A outra palavra que ouvi pela primeira vez em um dos episódios do seriado mexicano foi “gentalha” (“gentalha, gentalha, pfff”). Tudo bem que um dicionário Aurélio que peguei agora, de 1978, já tinha o verbete (sf., ralé, escória). Mas seria essa palavra tão usual desde os anos 1980 se não fosse o Chaves?

Tem ainda muitas expressões que não ficaram tão usuais, mas que não precisam mais de legenda. O “isso, isso, isso, isso”, “ta bom, mas não se irrite”, “ninguém tem paciência comigo” ou “pago tudo de montão no fim do ano” sempre vão servir para diferentes situações de nossas vidas, goste-se de Chaves ou não. Sem contar os sábios ditados – o melhor deles, pra mim é “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”.

E você? Qual expressão chavística (sem associações com a Venezuela) mais usa? Pense a respeito.

Dica: não é de hoje que a melhor função do orkut é procurar bobagem. Depois de uma rápida busca por Chaves, encontrei a curiosa comunidade Chaves: o 1o grande Grunge. De acordo com a descrição, ele sim é o precursor do movimento por, entre outras coisas, viver "dentro de um barril, que é um lugar underground". De onde veio isso, tem coisa pior.

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Chega logo, dia 13! Eu quero ver Brasil X Croácia!


Terça-feira, Junho 06, 2006

O que a gente escreve e o que a gente vê

Ando escrevendo demais sobre futebol. Até parece que entendo muito. Mais palpito que qualquer outra coisa. Mas, nos próximos dias, a tendência será piorar. Você só não sabe do que estou falando se for alienígena ou se viver no EUA. Isso, é Copa do Mundo. E é claro que eu adoro essa época, com toda a breguice que ela traz: enfeites nas ruas, pintura no asfalto, sarjetas pintadas e intercaladas de cal com tintura verde e/ou amarela, mesmo que seja aquela bem vagabunda q sai na primeira chuva. Cornetas na feira, bonezinhos de camelô, bandeiras e mais bandeiras que se encontram em todo lugar. Também adoro olimpíadas, mas nada se compara a uma Copa no Brasil.
Tá certo que a Copa passada foi a mais estranha, por ter a maioria dos jogos de madrugada (e um cheiro insuportável de churrasco na vizinhança a partir das 6 da manhã). Mas essa vai ser a Copa do enforcamento do trabalho, que vai acabar com o expediente mais cedo, com a conivência dos chefes - ninguém vai querer se passar por carrasco ou por maluco. A não ser que seja alienígena ou tenha vindo dos EUA.

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Estréia aqui ao lado: Marcão. Presença ilustre e freqüente em todas as grandes festas de Pirituba, com ou sem vinil. Esperamos fazer uma nova em breve. Aguarde.



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