Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Assim, meio Macabéa

Dia desses, assisti na TV o filme “A Hora da Estrela”, adaptação do último livro escrito por Clarice Lispector. Apesar de esperar um final melhor, fiquei curiosa pra comprar o livro e ver como a principal personagem, Macabéa, era descrita quando fosse lida, e não apenas vista em uma adaptação de cinema.

Pior é que, ao longo da leitura, muitas vezes me senti assim, meio Macabéa. Ela é uma jovem nordestina, insossa, inodora, insípida, invisível e sem sonhos – ela não sabe bem o que é isso. Ela até sente alguma coisa, mas não sabe que sente. Aceita todas as coisas como são e acha que é feliz com o que tem: o emprego de datilógrafa que cata milho, o quarto de pensão que divide com mais quatro mulheres, o namorado que a dispensa dizendo que ela é um cabelo na sopa. Macabéa é vazia, apenas.

Não que eu me sinta exatamente insípida, inodora e todas essas coisas ditas acima (felizmente, ninguém tb nunca me dispensou dizendo que eu era um cabelo na sopa). Mas essa sensação de vazio, de existência compulsória, toma conta de mim muitas vezes.

Macabéa se deu conta do tamanho de sua existência quando foi à cartomante que previu um futuro lindo e irreal para a songa monga até então. Foi quando ela passou a saber que sentia e que existia.

Felizmente, até que encontro sempre a minha “cartomante”, quando passo a saber que sinto e que existo. E que algumas passagens da existência são tão plenas que, no momento em que são vividas, parece que nada mais é preciso no mundo. Andar em uma praia vazia à noite, onde não chegou energia elétrica e com as lanternas apagadas, e ouvir apenas o barulho do mar, além dos próprios passos. Descobrir na areia algas que brilham quando o chão é riscado com o pé - e brincar como criança, arrastando o chinelo pela areia para vê-la brilhar. Rir de lembranças toscas e dormir em seguida. Andar, andar, andar e andar e conseguir tomar banho quente ao final do dia. Andar, andar e andar mais e olhar que apenas você e as pessoas que andam com você habitam, mesmo que temporariamente, o lugar por onde passou. Ir a uma festa, dançar muito e ir a um show onde se pode cantar até esvaziar os pulmões. Tudo isso dá sensação de plenitude. De vez em quando a Macabéa volta, é verdade. Mas, pelo menos, acho que sei como chamar a cartomante para mandar ela ir embora.

Aliás, conheço muitas Macabéas. E também me consolo ao saber que eu poderia ser tão Macabéa quanto todas elas: feliz com a mesma vida de muito tempo atrás, com o pouco que é conseguido, com o ginásio completo, com o namoro morno que vai virar casamento porque a idade está chegando. Preferi trabalhar e estudar à noite, andar de ônibus sempre para longe, ir a lugares estranhos às Macabéas. Isso não me faz melhor que ninguém, é verdade. Mas acho que pode, pelo menos, me fazer um alguém.

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Acho que agora minha próxima saga será Clarice Lispector. Porque eu cismo com uns autores, procuro tudo deles, até achar outro. Foi assim com Machado de Assis. Eu achei que seria assim com Guimarães Rosa (achava que o próximo, depois de Sagarana, seria Primeiras Estórias). Mas fui atropelada por Clarice.

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Vai ter foto aqui do Cardoso (a Ilha) assim que for possível. Foi uma das viagens mais roots que fiz na vida. Por isso mesmo, foi uma das melhores

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Escolha de previsões

Feriadão de 12 de outubro em Cananéia / Ilha do Cardoso segundo o climatempo:

12:
Sol com muitas nuvens passando a chuvoso à tarde. A chuva não pára à noite. (o dia da chegada)
13:
Chuvoso durante o dia e à noite. (o dia que, em tese, teríamos livre)
14: Sol. Pancadas de chuva a qualquer hora do dia e da noite. Muitas nuvens de manhã. (o outro dia em que teríamos grande parte livre)
15:
Sol e algumas nuvens de manhã. À tarde o céu fica nublado e não abre à noite. (o dia do pé na estrada de volta)
16:
Céu nublado de dia e de noite. (Se tivesse sol, seria o dia de mostrar o bronzeado. Mas isso se nos dias antecessores fizesse sol)

Segundo o horóscopo da Marie Claire para as nascidas em Aquário:

A semana começará com sonhos, lembranças e reflexões. Família e casa serão os assuntos em pauta que causam preocupações. De terça a quinta, o clima ficará mais divertido. Terça, quarta e domingo (o dia do pé na estrada?) serão dias especiais no amor. Uma viagem favorecerá a vida íntima, além de criar espaço para repensar o futuro profissional e definir objetivos. Sol, Vênus e Marte inspiram uma nova filosofia de vida. Use a sabedoria espiritual a seu favor, aprendendo a pegar mais leve e a respeitar sua sensibilidade. Fase de otimismo e tranqüilidade emocional para conquistar seus espaços.

Desnecessário dizer qual previsão eu escolhi para este feriadão, certo?


Domingo, Outubro 08, 2006

Boletim da semana

Eu bem que dei minha colaboração para que as eleições presidenciais (e só elas) fossem decididas no primeiro turno. Até apertei o 50 e vi a foto da Helô. Mas cancelei e repeti o voto de quatro anos atrás. Ou de dois, se considerarmos que eu apertei o mesmo número durante a eleição à prefeitura.
Mas foi pro segundo turno. Por pouco, bem pouco. Não me senti culpada - o pouco não foi um voto. Foi a ausência no debate? Foi a foto da grana? Os dossiês? Ou o povão de SP mesmo, que deu altos índices de avaliação para o Alckmin durante o governo estadual? Não sei, não sei.
Não consigo e nem tento mais convencer ninguém de que a melhor alternativa é deixar Lula mais quatro anos no poder. Estava até votando nele com vergonha, mais por coerência com a história do meu voto e das minhas crenças (ainda que seja uma breve história de oito anos) do que pelo que esperei. Mas um texto do Emir Sader na Carta Maior para mim foi definitivo. Se alguém ainda quiser me perguntar o pq de meu voto, mando este link. Se ler pelo menos até a metade, era porque merecia até um pouco de minha argumentação. Se não ler nada, melhor, não terei perdido meu tempo. E, claro, com a decência de não fazer disto um spam. Eu não agüento mais receber aquelas tranqueiras como "1001 motivos para nunca mais votar em beltrano". Se eu quiser receber, eu peço.

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Eita, qto ódio no coração. Mas eu nem tava tão odiosa assim. Já sei, foi influência do debate na Band.

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Maluf e Clodovil, hein? Triste. E a Soninha não chegou, que pena. Espero que tente outras vezes. Ela sempre terá meu voto. Pelo menos, o José Eduardo Cardozo, em quem votei nas eleições passadas, conseguiu chegar de novo.

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Eu tb recebi com aperto no coração a notícia do vôo 1907. Pode parecer idiotice, mas, enqto sabia as primeiras informações, estava apavorada pq minha tia voltava para SP de ônibus. Obviamente, uma coisa estava longe de ter ligação com a outra. Mas confesso que perder pessoas em viagens é uma das coisas que mais me deixa apavorada - eu mesma não conhecia este pavor. Mesmo que as viagens constantes façam parte da vida da minha família. Ou talvez por isto.
Outra confissão: fiquei com nojo dos coleguinhas jornaleiros que avançavam nos parentes para ter notícias. Nojo mesmo. Raça infeliz.


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