Sábado, Abril 21, 2007

A inspiração vem de onde? *

Enquanto eu não consigo achar que vou escrever algo legal, enquanto eu continuar deixando este blog empoeirado, enquanto eu não quiser escrever fatos cotidianos para preencher os dias sem postagens, vou atualizar este humilde espaço com um texto alheio e lindo, lido há alguns dias (já deve ter mais de mês, pra falar a verdade). Uma das coisas mais bonitas e singelas que li nos últimos tempos. De verdade. Visto pela primeira vez aqui.

Refeição
(Conrado Falbo - Palavra Nômade)

Antes de mais nada, convide o vento para entrar. De leve. Sem precisar abrir as cortinas, mas com cuidado para não cobrir a vista da janela. Quando a manhã amadurecer sonolenta e começar a pedir planos para mais tarde, já está na hora de iniciar o preparo das entradas. Enquanto isso, algum vinho transparente e vaga música.
Não há receitas boas o suficiente para acariciar paladares bem escolhidos, portanto, é essencial reunir em torno da mesa somente o material humano estritamente necessário.
Quando tudo estiver pronto, ninguém perceberá: a idéia é que a alimentação comece bem antes do momento de levantar dos sofás. Até lá, é preciso que os assuntos sejam cuidadosamente regados de acordo com o efeito pretendido. Nunca secos a ponto de esfarelar, mas também não muito cozidos apenas para recolher elogios superficiais.
Se os bocejos chegarem cedo demais, é a deixa para que o balanço da rede cuide do que ainda falta para a digestão das questões insolúveis no álcool das frases.
Quando chegar o tempo de acender as luzes e passar novamente o café, saiba que este ritual está apenas começando.

***

Boa semana a todos. Se eu achar que ainda tenho algo para dizer antes de começar a semana, passo por aqui.

Domingo, Abril 08, 2007

Procissão

Aos olhos de um desconhecido, aquele senhor aparentava mais de 80 anos, atestados pelas rugas e pela dificuldade em caminhar. Morava no alto de uma casa que já foi sobrado e que ainda não chegava a ser edifício. Em outro bairro, uma casa de quatro andares talvez fosse mansão. Mas, naquele local, seu quarto era apenas o último cômodo construído acima da casa dos filhos. Seu horizonte era preenchido por outras casas e a vista de um parque que já teve brinquedos e crianças.

Quando anoiteceu, ouviu o barulho de microfones e os passos de uma multidão que surgia luminosa como muitos vagalumes que vira durante a juventude. Era a procissão da sexta-feira santa que fez uma parada bem em frente à sua casa.

Com dificuldade, desceu as escadas de seu quarto andar degrau por degrau, firme nos corrimões e no propósito de ver o povo que chegava. Lentamente, chegou à mureta na qual estava um de seus distraídos filhos e tirou o chapéu que o acompanhava há muitos anos.

O olhar fixo nas velas acesas lhe trouxe a lembrança das procissões e romarias que acompanhou, e também do respeito que os antigos devotavam às cerimônias do interior. Roupa de missa era adjetivo para as melhores vestimentas, guardadas com cuidado de naftalina para evitar a ação das traças. Era com estas roupas que ele cortejava as mais belas moças da cidade, inclusive a mais bonita que o escolheu para ser marido. Casou-se, educou os filhos com os costumes herdados dos pais, veio para São Paulo tentar sustento melhor para a família, mas agora era apenas um velho que morava em um cômodo em um puxado feito no quarto andar.

Ele não se importava mais com isso. Tinha um teto, o que lhe era o bastante àquela altura da vida. Ainda via os filhos, os netos, desfrutava de um (precário) tratamento de saúde. E, naquela sexta-feira santa, ainda pôde ver a procissão que carregava velas e o andor de Cristo crucificado. Ouvia, com lágrimas nos olhos, o povo que cantava, silenciava e seguia. Continuou debruçado até passar a última pessoa da multidão.

Voltou a subir vagarosamente as escadas que o levavam até seu quarto. E sonhou com um céu repleto de estrelas carregadas como velas em uma procissão repleta de fiéis, que o levariam de volta para um tempo em que não era seria apenas um espectador agradecido, mas um caminhante deste e de qualquer outro caminho. A fraqueza nas pernas já não existiria mais. A imaginação poderia levá-lo para onde quisesse.

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