Sexta-feira, Julho 25, 2008

Pronto

De tanto ouvir a palavra pronto dias atrás, fui procura-la no Aurélio:

adj. 1. Que não tarda; ligeiro, rápido. 2. Que age com rapidez. 3. Imediato, instantâneo. 4. Concluído. 5. Disposto. 6. Bras. Gir. Sem dinheiro (!)

Como toda palavra que passa ter usos regionais, a sua aplicação naquele contexto não era exata à recomendação do dicionário, mas uma outra maneira de dizer: isso mesmo, combinado, fechado, excelente, ótimo, ou coisas do tipo.

Com este sentido, a palavra se tornou expressão e é muito (mas muito mesmo) utilizada por pernambucanos, como no exemplo abaixo (mas é bem verdade que também já a ouvi de cearenses e baianos).

– Te mando por e-mail essas informações e a gente se fala, ok?
– Pronto!

Ou

- Você pode ligar para este número só para testar uma conference no aparelho?
- Pronto.

Ou

- Eu te encontro às 9h lá, certo?
- Pronto.

O Pronto, assim como o Então paulistano, tem os mais diferentes usos imagináveis. Ele é o ponto final simpático para qualquer conversa ou assunto. Eu não cheguei a ouvir, mas tenho certeza que um diálogo entre cliente e garçom em qualquer bar do Recife é assim:

- Amigão, traz uma cerveja?
- Pronto.
- Um pastelzinho também?
- Pronto. Algo mais?
- Não, obrigada.
- Então pronto.

A palavra também pode servir pra fechar acordos de amigos que decidem ir a um rumo.

- Eu não sei se vou no forró ou no rock.
- Eu também não sei se quero encher a cara ou beber só água.
- Vamos à praia?
- Pronto.

Curioso devia ser observar uma paulistana usuária fiel do Então interagindo com os adeptos do Pronto.

- Então você manda essa informação pro Fulano que eu converso com Cicrano.
- Pronto.
- Combinado. Se você precisar de mais detalhes sobre este assunto, pode me ligar então.
- Pronto.
- Então tá.

Influenciável que sou com sotaques e expressões, eu adotaria o Pronto se ficasse pelo menos uns três dias no Recife. E sem me referir à comida que estava pronta ou ao trabalho pronto.

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Assim como paulistanos usam Então pra tudo, quem usa Pronto deve achar exagero quando alguém observa ou repreende, sem perceber quantas vezes repete a palavra ao longo do dia. Mas, queridos, continuem usando o Pronto. É excelente!

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PS: Preciso fazer aqui uma defesa do uso paulistano do Então. Veja definição do Aurélio:

Então - adv: nesse ou naquele tempo. 2. Nesse caso.

Então, o paulistano usa sempre o então do jeito certo, ao começar frases que poderiam ter o adendo “neste caso”.

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Então. Essa defesa não convenceu nem a mim.


Quarta-feira, Julho 09, 2008

Conselho

"-Vilminha, vou te dar uma dica de escrita. Sabe o que é mais importante na hora de escrever um conto? É o começo.
-Por quê, papai?
-Para a pessoa se interessar e ler inteirinho. Agora, me descreva o que você está vendo.
-Uma moça alegre e bondosa, papai.
-Nada disso, Vilminha. É uma moça de vestido amarelo.
Se ela é alegre e bondosa, você vai falar depois. Na primeira vez que você descreve alguém num conto, diga só o que você vê. Entendeu, Vilminha?”*

A Vilminha do diálogo acima não sou eu, e nem a descrição é de algum episódio de minha vida. Quem recebe o conselho acima é a filha de Guimarães Rosa, escritor a quem eu sou muito grata nesta vida.

A inspiração para meu nome não veio de Guimarães Rosa – que completaria 100 anos se estivesse vivo. Ele não sabia, mas minha família tem um grande número de Vilmas. Meu nome é assim por causa de minha avó, assim como é o de minha tia-madrinha, assim como é o de outras que tiveram um nome húngaro/romeno abreviado.

Mesmo sabendo que minha avó era legal pra caramba e que minha tia-madrinha é figurassa, só fui me conformar um pouco mais com meu nome depois que soube que Guimarães Rosa havia dado o mesmo nome para a filha. Mas isso não implica que eu continue a nomear a(s) filha(s) que eu tiver da mesma maneira, tal qual os Aurelianos infinitos de Macondo.

***

Desde ontem, não consigo parar de ouvir Lisandro Aristimuño. Cantor argentino, com três CDs lançados. Tem mais aqui e aqui.

* Folha de S. Paulo, Ilustrada, 01 de julho de 2008.

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