Quarta-feira, Julho 22, 2009

Comodismo

Já faz alguns meses que perdi a mão pra escrever. Mas não como quem esquece como andar de bicicleta. Ainda sei lidar com os escritos, acho. Talvez me sinta como um jogador que ficou muito tempo no banco depois de voltar de uma contusão.


Na realidade, há tempos que não leio, e talvez isso tenha influenciado. Comecei dois livros, e não fui até o fim. Nenhum deles me fisgou como Garcia Márquez, Machado de Assis ou Guimarães Rosa.


É por isso que, vez em quando, releio livros, procurando as mesmas reações de quando a publicação foi lida pela primeira vez. Como essas emoções não se repetem, acabo descobrindo outras nuances da história. Mas eu sei que não vou chorar de novo ao saber que o Dito morre, ou que o Diadorim era mulher, ou que a viagem que encerra Amor nos Tempos do Cólera não tem fim.


Pra falar bem a verdade, é bom reler esses livros, mas nada se compara àquela ansiedade boa de ler pela primeira vez, com aquele interesse que te faz esquecer do tempo.


O negócio é que a gente se apega ao que dá boas lembranças. Ouve mil vezes a música que marcou alguma coisa. Sempre dá um jeito de ir naquela balada onde encontrou aquele mocinho incrível q nunca ligou. (Na qual ele nunca mais vai aparecer, pelo menos nos dias em que você for de novo). E não deixa de ir àquele bar de onde sempre é possível sair trançando as pernas depois de achar solução pro mundo e rir com os amigos.


O problema é quando a gente se apega tanto a esses lugares “confortáveis” que deixa de conhecer coisas novas. Acomodação mesmo. Afinal, a gente já sabe quem é o garçom mal humorado que vai trazer as cervejas. Também tem certeza de que, naquela balada, o DJ vai tocar um setlist q que só ele conhece. E aquelas músicas preferidas já foram tão cantadas que a gente nem lembra mais porque gosta tanto delas – e até confunde as lembranças.


Só que mudar dá preguiça, gente. Principalmente pra quem já se acomodou. A gente relê os livros porque eles estão na prateleira. Não é preciso ir a sebos ou livrarias, e nem pedir recomendação a outras pessoas. A gente vai naquele bar ou balada porque já sabe o que esperar.


E, por mais frequentes que sejam nossas reclamações, fazemos muito pouco para que as queixas deixem de existir. É cômodo assumir um papel de vítima e fazer de nossas conquistas as culpadas por nossos minutos de infelicidade. Sem queixas, não há problemas aparentes. E, se não há problemas, em quem eu vou jogar a culpa das minhas angústias?


E a história da falta leitura virou esse desabafo de quem está se vendo acomodada.


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Post feito ao som de Zeca Baleiro, outro que me dá boas lembranças, embora eu já nem lembre mais a razão.

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