Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Lupa

Eu não suporto aqueles dias em que a tristeza vem, se instala e se recusa a sair do recinto, ainda que vc insista e até disfarce. E não adianta procurar explicação - vai que você encontra, já disse uma amiga. Enquanto você luta com a mente para desistir de querer saber a razão da tristeza, é possível culpar o dia nublado, a condução lotada ou até um pressentimento. "O que será que vai acontecer, meu Deus?".

Acaba o dia e não acontece nada. "Ainda bem", você pensa por algum momento. "Mas como ainda bem? Então ainda vai acontecer!". Aí, qualquer coisinha ruim acontece e você encontra nela a razão do mau presságio da manhã.

O pior desses dias é a chegada daquela maldita lupa em nossos defeitos. Encerro o dia de hoje, por exemplo, com uma culpa terrível por não conseguir poupar. Por trabalhar como uma formiga e ter tanto estoque quanto uma cigarra. Aliás, sempre tive bode dessa fábula. Porque sempre conheci formigas que trabalharam para as cigarras ao longo da vida.

E aí, em vez de procurar as soluções, a lupa vai para as lamúrias. "Mas eu pago contas que não são minhas". "Mas eu preciso também aproveitar a vida". "É, eu não nasci pra guardar nada. Só pra trabalhar". E as lamúrias mudam conforme o dia em que a tristeza chega. Hoje, foi a conta bancária. Já aconteceu de ser a vida amorosa ("pelo jeito, vou ficar sozinha a vida toda"), trabalhística ("sempre vou ser peoa"), familiar ("ninguém me leva a sério nessa casa") e "corporal" ("ah, esses quilos que não me largam").

A lupa das lamúrias acaba sumindo no dia seguinte, quando a gente resolve partir pra vida prática. Aliás, a dona Vida Prática é uma salvação. Quer pegar ônibus vazio? Acorde mais cedo. Quer ter mais dinheiro guardado? Não invente uma bebedeira seguida de uma balada ruim + táxi pra voltar pra periferia. Com decisões práticas, não dá tempo de ter lamúrias.
Vida Prática, por favor, venha me dar bom dia amanhã cedo.

***

Comentário com atraso: eu gostei do Rio 2016, apesar de me sentir um ET em meio a uma torcida por Chicago ou Madrid (não, eu não estava fora do Brasil. Estava apenas em uma agência de comunicação. O que pode ser um sinônimo para "fora do planeta".). E eu sempre sonhei em trabalhar numa Olimpíada.

***

O cavalo branco dessa história era, na realidade, um trem de metrô. O príncipe vestia um jaleco e a princesa procurava seu amor nas escadarias. Incrível essa história do amor bandido que provocou o sumiço de uma mulher por cinco dias. Mais incrível ainda foi ela ter acreditado em tanta lorota. Ah, coração vagabundo...


2 comentários:

j disse...

Só uma pergunta: eu tenho relação com "balada ruim + táxi"? Ai..., espero que não.
rs

Beijos,

Anônimo disse...

Sinto cheiro de culpa no ar.
D