Eu disse que a crise dos 30 já tinha passado.
Mentira.
Ela chegou novamente, e com mais força do que no carnaval deste ano, quando completei as três décadas de vida.
E foi desencadeada, acho, por questões materiais. O que eu já consegui acumular na vida? Não tenho carro, não comprei casa, não moro sozinha, não tenho pós-graduação, ainda não falo inglês e fico até feliz quando o sinal de menos da conta bancária não tem um número assim tão grande na frente. E ainda estou bem longe do salário que mereço.
Depois, vieram as questões afetivas. Não casei, ainda não tive filhos e só tenho planos para fazer isso – o candidato a pai ainda não deve ter passado pela minha vida.
Então, o que eu faço com tudo isso?
Aí eu vejo que há muitas outras mulheres nesta faixa de idade com estes e outros questionamentos. No fim, a grande pergunta é: “o que eu fiz da minha vida?”
O problema é que, com este mundo que exige respostas instantâneas com modelos tão vazios, nos esquecemos de tudo de bom que passamos até então.
Aos 21 anos, recebi um conselho fundamental que, como todos os conselhos, só foi valorizado muito tempo depois. “Você é batalhadora. Ninguém vai tirar isso de você”. A frase foi ouvida durante a dispensa de um emprego, e me causou muita mágoa na época. “Que bom que eu sou batalhadora. Isso vai convencer o gerente de banco a perdoar minhas dívidas?”, pensei, irônica como sempre – e desde sempre.
Mas o desenrolar da vida mostrou que, mesmo sem me encaixar em um modelo perfeito para uma mulher de 30, idealizada como bem sucedida em todas as áreas possíveis e imaginárias, vivi coisas extremamente especiais, e sempre por escolhas próprias. Desde não me enfiar em dívidas horrorosas apenas para dizer que tenho um carro até não me contentar em acender as esperanças de alguém que eu saiba que não quero ter ao meu lado, apenas para não me ver sozinha. Sim, tive limitações que me levaram a algumas opções. Mas sempre fiz escolhas.
E, de fato, ninguém tira de nós o que vivemos. E aí que volta na cabeça o conselho recebido lá atrás, aos 21 aninhos. E nessas horas também é que valorizamos os perrengues vividos, acima de tudo.
Aquele trabalho corno de gráfica, com envelopagem e etiquetagem que sujava as mãos e cortava os dedos. Aquele pessoal folgado que me fazia datilografar um monte de cartas quando eu catava milho. Aquela revistinha xumbrega para a qual ninguém queria dar entrevista e que fazia eu me virar em mil pra poder ter algum tipo de informação pra escrever. Aquelas pautas chatas, chaaaatas para as quais era preciso inventar um gancho para serem legíveis – e elas ficavam boas! Aquele cliente totalmente desconhecido que fazia um trabalho incompreensível, mas mesmo assim era preciso divulgar – e dava certo!
Sem contar os ônibus lotados, os caminhos aprendidos e os atalhos descobertos, além daquelas pessoas que pareciam inesquecíveis e que sumiriam da vida como em um passe de mágica ou com uma simples promessa não cumprida: “eu te ligo!”. Todas as lições foram aprendidas – inclusive a do “eu te ligo”, que eu também já apliquei, confesso.
Tudo isso ensina e nos faz deixar de ser bestas. E sentimos isso com muita força especialmente ao ver as reações daqueles que foram protegidos do mundo – medida geralmente tomada pelos pais medrosos e culpados de hoje. Apesar da condição de filha única, ninguém me protegeu, e eu vou ser grata aos meus pais por todo o sempre.
De toda maneira, sei que os questionamentos não vão acabar assim. Encontradas as respostas, outras perguntas aparecem. Ainda vou me perguntar por que eu não casei, ou por que eu não ganho o dobro, ou por que eu não perco nunca aqueles quilos a mais, ou por que aparecem tantos porquês nessa vida cheia de interrogações e exclamações. Mas ninguém tem o mapa da alma da mulher, já disse Zé Ramalho em um dos versos já citados aqui.
***
E uma citação de Clarice Lispector encerra de maneira muito providencial essa conversa.
“Morri de muitas mortes e mantê-las-ei em segredo até que a morte do meu corpo venha, e alguém, adivinhando, diga: esta, esta viveu.”
1 comentários:
gostei. gostei mais ainda pq pelo pouco q te conheço posso dizer tb: essa viveu! e vive e é bem feliz e pra cima! o resto Velmets, é o resto. beijao!
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