Eu tentei postar no blog durante as férias. Mas não consegui. Postei bastante no twitter, que também alimenta o facebook. O que me rendeu até algumas broncas - "vc não saiu da internet!". Ah, saí sim, e como. Fato é que eu precisava compartilhar o mínimo do que eu via. E depois descobri que era acompanhada por mais gente do que imaginava.
Foram muitas as impressões desta primeira viagem solitária. A primeira delas é que nem foi uma viagem tão solitária assim, como temia a minha necessidade aquariana de andar em turmas. A chegada em Santiago indicava que eu teria uma vida de estudante, assim como os meus recém-amigos de hostel, a maioria deles em intercâmbio de semestre em universidades chilenas. Sim, universidade. Uma coisa que eu terminei há quase 10 anos.
Descobri ser mais nova do que meus 30 anos fazem crer. Pelo menos, meus amigos simpáticos de hostel me fizeram acreditar nisto. E isso também ajudou a crise dos 30 a ir pra bem longe.
Não fiz passeios clássicos de turistas brasileiros no Chile, como conhecer uma vinícola ou ver a neve. E não me arrependo. Mas conheci a casa de Pablo Neruda, bebi Pisco, vinho, fui a festas, andei a pé e vasculhei o metrô, uma das melhores ferramentas para se conhecer Santiago. Tive a impressão de que Santiago é uma São Paulo que deu certo, apesar de sua aparente desordem. E também notei que quem se vira em São Paulo, desbrava qualquer lugar.
Foi excelente ter rotina de estudante duranga durante a semana. Porque, deste jeito, eu andei direto de metrô e a pé, olhando as ruas, prestando atenção às conversas e aos inúmeros "cachai" soltos em cada diálogo chileno (a expressão é algo como "entendeu?", "manja?", "tá ligado?" ou qquer outra que teste a atenção do interlocutor). Além de me maravilhar com aquelas lojas de departamento que vendiam marcas luxuosas e impensáveis numas Lojas Americanas do Brasil, como Lancome, Channel e outras coisas que minha alma monetareamente pobre não conhecia.
Me encantei por Pablo Neruda, embora só o tenha lido pela primeira vez em solo chileno. E, como eu estava bem metida, resolvi que só leria Neruda em espanhol. Eu não gostaria de ler uma tradução de Guimarães Rosa ou Machado de Assis. Então, porque me arriscaria a ler Neruda em português se eu estava na casa do homem? (Prometo que abordo mais Neruda em outro tópico).
Consegui ser uma típica paulistana também no Chile, e isso não diz respeito apenas ao meu passo apressado. Fui à praia em um dia totalmente nublado e ainda me senti feliz pelo simples fato de ver o Pacífico em Viña del Mar. Tentei descobrir qual é o encanto que os chilenos nutrem por Valparaíso, mas infelizmente não consegui. Andei horas sem conseguir encontrar a casa de Neruda por lá, e com uma informação diferente a cada esquina. Parei no porto, não tive vontade de andar no barquinho de lá, peguei um metrô e fui pra Viña. E me arrependi de não ter feito isso antes. Mas fiquei feliz, no final das contas.
Até pensei em ir para o Atacama de ônibus, mas o frio que me atacou no Chile, os pesos economizados e a preguiça enorme de pegar estrada me fizeram comprar passagens aéreas mesmo. E me senti um luxo só fazendo isso.
Claro que, na segunda parte da viagem, rumo ao Deserto do Atacama, bateu de novo a insegurança. "Foi tão legal aqui, será que também vou gostar de lá? Como serão as pessoas que vou encontrar?". Com este medinho, embarquei, fiquei em um hostel melhor que o de Santiago e encontrei pessoas tão bacanas quanto em Santiago. Se na capital chilena eu conheci uma colônia brasileira, em San Pedro eu estive no meio de chilenos, treinando meus ouvidos para a rapidez absurda dos diálogos sóbrios e bêbados.
E o deserto é lindo. Impressionantemente lindo, mesmo. Do alto, quando o avião chega a Calama (cidade vizinha a S. Pedro), parece o Google Maps, principalmente aos olhos de um brasileiro acostumado com prédios e/ou verde constante. Mas são cenários tão lindos, e com tanta vida... Passei frio sim, passei mal com a altitude sim, o que me fez desistir de ir para o salar de Uyuni, na Bolívia. Mas não me arrependi. Aliás, não me arrependi de nada nessa viagem. E trazer esse sentimento na bagagem de volta é o que fez estes dias valerem taanto a
pena.
***
E, pra encerrar este post no período em que este blog permaneceu mais tempo sem atualizações (nem conto mais os dias ou meses), eu bem que tentei escolher um trecho de poema do Pablo Neruda. Não consegui. Vai inteiro um dos que mais reli em "Los versos del Capitán".
La Reina
Yo te he nombrado reina.
Hay más altas que tú, más altas.
Hay más puras que tú, más puras.
Hay más bellas que tú, hay más bellas.
Pero tú eres la reina.
Cuando vas por las calles
nadie te reconoce.
Nadie ve tu conona de cristal, nadie mira
la alfombra de oro rojo
que pisas donde pasas,
la alfombra que no existe.
Y cuando asoma
suenan todos los rios
en mi cuerpo, sacuden
el cielo las campanas,
y um himno llena el mundo.
Sólo tú y yo,
sólo tú y yo, amor mío,
lo escuchamos.
Não preciso dizer que um rapazinho solteiro teria grandes chances com este poema em meu processo seletivo.
Tem mais de Pablo Neruda aqui: http://www.neruda.uchile.cl/
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